Thursday, January 14, 2010

Alien


É sempre assim toda vez que eu volto pra casa. O problema é que eu nunca sei onde eu moro. Mentira, eu até sei onde eu moro, eu moro na minha casa. Só não sei onde fica minha casa. Não no sentido material, nem no sentido figurado. É uma questão um pouco mais niilista mesmo. Não que ela não exista, mas ela é meio autodestrutiva.
Eu sempre tive esses questionamentos suicidas. E eu sempre esqueço por onde eles começam e de onde eles vêm, onde eles moram. Eu me esqueço de tudo isso porque eu sempre me perco. Voltando pra casa ontem, voltando do centro, eu vi na rua um pedaço do asfalto se desfazendo, uma flor jogada no chão, uma criança andando de bicicleta – bicicleta azul – no sol. Não estava tão calor, mesmo sendo verão, e a criança andava de bicicleta azul, para lá e para cá. E eu notei que ela não se importava com os pedaços do asfalto que se desfaziam e chacoalhavam o caminho da bicicleta. A criança não se importava com as flores que ela atropelava. Ela só andava, para frente, sempre. Era bem engraçado. Bem engraçado continuar olhando e o sol continuar se pondo. E eu seguindo, seguindo para onde? Para lugar nenhum, eu estava perdido.
Não conseguia achar pedaço de mim se desprendendo do asfalto, nem pedaços de nada, nem floresci, enquanto tentava me encontrar. Tentava achar o que eu tinha perdido. Perguntava, para as pessoas, estranhas, perguntava. Elas respondiam. E aí eu entendi, entendi a questão. Entendi que eu já sabia onde me encontrar.
Desisti de vez de florescer, desisti de me desfazer em asfalto. Desisti do pôr-do-sol e fui encontrar nas informações aquilo que era tão difícil admitir. Eu morava ali, naquela informação, naquele pedido de “para onde ir?”. Descobri que morava perdido, perdido nas pessoas e nas perguntas. E foi revelador. Pela primeira vez, no meio de um diálogo, me senti em casa e descobri onde eu morava. Eu moro ali, com aquela criança naquela bicicleta azul, com aquele asfalto que esfarela ao sol e com aquelas flores caídas ao chão. Afinal de contas, eu estava na frente de casa... Ou em cima.

1 comentários:

Vinícius Lourenço. said...

Você estava no ônibus quando pensou nisso?
Haha, é que eu sempre me sinto meio perdido quando estou no ônibus, as coisas vão passando sem sentido, é bem estranho =P
Não gosto muito quando tu faz posts "pessoais" demais tio, prefiro teus posts mais, ehn, hmm... "demagogos" ehAHeuiahUIEHaE
Abraço!