Sunday, October 25, 2009

Quarteto


Eu nunca nego o quanto eu sou nostálgico e saudosista. Até porque negar essas características na minha personalidade, seria quase uma afronta ao meu conhecimento de mim mesmo. A grande questão é que às vezes é tanto, que é quase sólido. Tanta coisa, tantos detalhes que voltam lá do longe pra conversar mais uma vez. Discutir a relação. Sozinho.
É quase um fardo, se não fosse tão lindo. Porque cada acontecimento, querendo ou não, me transforma. Uns mais bruscamente, outros menos. Uns bruscos menos dolorosos do que os menos bruscos que logo são mais aprazíveis do que alguns mais bruscos. É uma confusão... De cheiros. Que eu ainda lembro, guardo. Pedacinho de papel, a letra dos doze anos, dos oito até. Os quadrinhos, homem - aranha. Demolidor. Marvel 98, 99. O mundo de Sofia. Os meus moldes. Minhas formas que me fizeram assim, tão de longe. E de perto. Os meninos lá do prédio. Do meu, e do inclinado também. De frente pra praia, de frente pro deserto. O meu, no campo. E os meus meninos também. O Gordo, o Andrógino, o Atleta, o Negro, o Cego, o Junkie e o Narciso. Éramos nós, e éramos só nós. Quatro. Nem precisavam extras, nem precisava o livro inteiro. Só até a professora chegar já me satisfazia.
As formas menos rígidas de hoje, mais camufláveis, me escondendo, são vocês. E eu sou produto, do subproduto. Da cultura? Da noite. Da falta de tempo, da dor de cabeça. Do meu prédio, velho azulado?
O que eu sei, é que eu sou assim, eu ainda sinto o gosto. Sem desgostos por eles terem tocado os meus lábios. Sem dramatizações por que as coisas foram embora. Sem dramatizações hoje. Ontem ainda perdura, perdura o sangue no chão, que eu terei de esfregar. Há. Há de vir o dia que eu possa enfim apagar todas as manchas e as cicatrizes sem destruir as memórias. Preservar.

1 comentários:

~cleópatra said...

'Sem dramatizações por que as coisas foram embora. Sem dramatizações hoje.'

Como eu poderia te dizer exatamente o que sinto de forma mais clara? there's no way, man. Bravíssimo.