
Às vezes eu desconfio que todo mundo espera a hora em que eu enlouqueça. Definitivamente no caso. Pra que todos possam olhar, atônitos, em um momento comum, ao noticiário anunciando meu nome. Menino de 18 anos é dado como insano e é internado no hospital psiquiátrico geral de Florianópolis. No fundo, é bem o que muita gente espera ouvir.
Mas eu até que estou mantendo a tranqüilidade. Ainda nem matei ninguém hoje. Nem cortei nenhuma veia, nem bebi nem um pouquinho de sangue. Sem lâminas pelo dia, vou passar por hoje. E não vou mais procurar nada de estranho no mundo, nem querer saber algum fato bizarro que me faça uma enciclopédia ambulante de coisas peculiares. Talvez eu até assista novela. Ou ouça as mesmas músicas que você um dia. Ou não.
Hoje eu nem vou fazer piadas irônicas, para que ninguém possa ficar esperando pela minha prisão. Não vou rir dos deficientes que andam pela rua, nem vou procurar um caso engraçado, de alguém que se engasgou engolindo uma espinha de peixe ou cortou os pulsos com Prestobarba. Porque hoje eu não vou deixar a desconfiança dos outros ser confirmada.
Talvez eu acorde amanhã sem esse humor humanitário, essa simpatia com o vizinho. Talvez eu dê bom dia hoje, e amanhã eu lembre que não vou com a sua cara. Não é bipolaridade, não é que meus sentimentos não estejam definidos, eu sei muito bem o que quero, só não gosto de saber disso o tempo todo. Então às vezes acordo com um humor mais sádico e finjo que te amo, ou que simpatizo. Acordo amanhã e te desprezo de novo. É um ciclo. Um ciclo de amor e desamor que todo mundo deve sentir em algum momento. Por isso se você ia abrir um site de notícias locais esperando ver meu rosto estampado, pode desistir. Eu ainda não enlouqueci. Porque hoje não era o dia certo.
Não adianta abrir nada amanhã também, vou me manter na linha agora. Ou melhor, vou omitir, porque é omitindo que nos tornamos normais, não é verdade? Ou será que eu realmente sou tão estranho que sou o único que gosta de sofrer um pouquinho aqui? Talvez sim, talvez não, mas a dúvida não é um fardo. O fardo é não ter simpatia de ideologia. Nem dos outros, nem dos meus semelhantes. Aí você pode continuar pensando que o noticiário vai estar mais que certo, assim como aqueles que me carregam portas adentro da prisão. Mas não é minha culpa se a hipocrisia dos outros me faz diferente.
Ser tão normal assim, deve ser até interessante, porque ninguém comenta, nem ninguém questiona. Você simplesmente existe. Conta como mais um fósforo na caixinha, enquanto eu fico esperando que o carro bata no caminhão e meu rosto se esfarele no asfalto, ou então que a criança no restaurante saia correndo com a faca na mão e perfure a garganta em um tombo desajeitado.
Talvez alguém mais espere essas mesmas coisas. Mas só te peço pra desligar o noticiário e desistir de esperar por mim, agora vou limpar meu quintal. Vou fingir que gosto do sol até se for necessário, mas chega de viver nas margens. Agora vamos afundar todos juntos. Num ato máximo de masoquismo eu decidi naufragar com todos vocês, lado a lado, congelando no mar da ignorância.
Abram espaço e me dêem boas vindas.
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