Wednesday, March 25, 2009

28


Dois amantes. Uma faca que não tinha fio. Um sexo que não tinha mais sabor. Tinha cheiro. Cheiro de hospital naqueles corredores brancos. Ela, deitada em uma cama. Mutilada. O acidente não deu chances, não existiu intervenção divina no carro que vinha em sua direção. Não existia compaixão dela enquanto corria na contramão. Apenas existia ele. Que chorava. Chorava pelo cheiro de hospital naqueles corredores tão brancos. Tão brancos corredores do Hospital Central.
Era uma emergência evidente. Ele recebera a ligação no celular enquanto trabalhava. Saiu às pressas. Saiu na escuridão em busca de luz. Seu amor jazia na estrada com o sangue manchando o asfalto. Ele não teria de limpar. Não precisaria sentir o sabor daquele sangue. Agora não era tão tarde, ela respirava. Estava quase anoitecendo, mas agora não era tão tarde. Era fim. Fim de tarde.
Era dor em cima da cama. Ela deitada. Os aparelhos conectados ao seu corpo. Soro na veia, tubos de oxigênio e a beleza esmiuçada. Esmiuçada em migalhas, migalhas da bela mulher que fora. Fora ontem, antes de dirigir na contramão. Depois de brigar com ele. Depois de dizer que o amor não existia mais naquele lugar. Que o lugar que ele estava não era ao lado dela. Que ele já não significava mais nada e que o álcool que ela ingerira não a faria mal enquanto dirigia para casa de sua mãe. Com malas. Malas de roupas. Malas de decepção. Decepção por um erro alheio. O erro dele. O erro de deixar quem se ama morrer. Sufocar o relacionamento com uma faca. Uma faca que não tinha fio, atravessando a garganta do cupido. A faca sem fio que atravessava o esôfago da relação e o fazia afogar no mar do próprio sangue.
Ela deitada. Ela respirando. Ela que já não tinha como escapar dos braços do fim. Do término do ciclo. Ela era o fim da vida dele. Irônico. Vinte oito anos atrás quando nascera não sabia que encararia algo tão intenso em sua vida. Vinte oito horas atrás quando deixava a namorada para trás para clarear os pensamentos também não pensava que a torturava. Acorrentada ao apartamento. Apartamento pintado pelo amor vazio que os dois tinham. Amor pintado pelo apartamento que construíram como conquista de dois anos de namoro. Apartamento que sufocavam com a faca sem fio. Sufocavam com um sexo que não tinha mais sabor. E agora só restava o cheiro. Cheiro de hospital naqueles corredores brancos. Ela respirando, deitada. Ainda mutilada. Ainda sem chances de voltar para os braços do amor. Não podia mais reviver o sentimento. Ele estava morto. Deitado de bruços na linha do trem. Esmagado pela pressão do chão ao saltar do vigésimo oitavo andar. Vinte oito vezes ele fechava os olhos e tentava acordar. Acordar daquela noite mal dormida. Acordar nos braços dela. Dela deitada na cama. Embutida em oxigênio. Soro. A beleza hospitalar da cena era macabra.
Ele virou as costas. Saindo pelo corredor. Esperança. Os corredores tinham até um tom verde. Um tom verde da camiseta que ganhara de presente. Presente de vinte oito anos. No dia vinte oito. Rezava por médicos. Vinte oito médicos. Médicos que só podiam informar. Informar que o estado era fatal. A única opção era esperar o sofrimento terminar. Ela lutaria pela própria vida enquanto podia. Os aparelhos ajudariam. Mas era uma luta com um fim estabelecido. Um fim que tinha sabor, sabor de sangue. Sangue na boca. Sangue que sufocava o esôfago perfurado pela faca sem fio que era aquela relação. Era o cupido afogado. E a mulher deitada, entregue a beleza hospitalar e presa no jogo doentio da medicina. Medicina que decidira colocar oxigênio na beleza. Balões de soro na doença. A doença do carro na contra mão. Do álcool no sangue. Sangue mutilado na cama. Deitado. Manchando os lençóis e esmigalhando o quarto. O quarto denso pelas lágrimas.
Ele criava a atmosfera do desespero. Ela não podia entrar em pânico com ele como sempre que ele precisava dela. Não dessa vez. Dessa vez não existiam discussões de quem iria lavar o que ou quem iria remover a faca do esôfago do cupido. Esfregar o sangue no corpo para limpar a consciência. A consciência dele que saíra de cabeça quente na noite anterior. Limpar a noite com a amiga dela. A noite que ele manchou os lençóis de outra mulher. Limpar a reação dela ao recebê-lo afogado em lágrimas.
No cesto que ele estava jogado em frente à porta quando a campainha tocou não existia nada. Apenas o coração. Se afogou em lágrimas. Lágrimas para pedir desculpas. Ela se afogou no carro. Se afogou no vinho. Quebrou o copo e sujou o chão. Saiu correndo. De carro, na contramão.
Ele na contramão com a amiga. Ele com a faca deitado ao lado do corpo. O corpo da beleza hospitalar. O corpo que sofreria até o último segundo. Sem sentido. Sem pressa. Ele tentava entender que tipo de jogo doentio era aquele. Sofrer até o último segundo de vida. Ela não poderia ouvi-lo. Ele queria gritar. Gritar desculpas. Gripar que afogara. Afogara em dor. A dor de tê-la longe. Gritar as desculpas de todo homem. Ele pensara nela. Fizera aquilo, mas nem gostara tanto assim. Que a amiga não agradava e que só fizera aquilo por causa da discussão.
Ninguém queria aquele filho. Aquele filho fora o motivo da discussão. O espermatozóide. Eram seus testículos. Era a culpa. Era o motivo da discussão. Não estava preparado. Vinte oito anos. Aqueles vinte oito motivos para ter um filho não pareciam sólidos. Preferira argumentar. Brigar. Esmiuçar a paciência do cupido que ainda respirava. Foi afogar na amiga. A amiga de infância dela que por tanto dissera o quanto eles formavam um belo casal. A amiga que tinha a faca, mas afiada. A faca certeira que acertou o carro. Carro na contramão. Caminhão que vinha reto. Reto esfregando o rosto de Paula no asfalto.
Ele não poderia mais pedir desculpas. Ele não poderia assistir aquele rosto esmiuçado. Aquele rosto em pedaços na sua vermelha beleza hospitalar. Já houve um momento bom para calar. Calar o sangue que escorria. Calar os ferimentos. O soro no balão de agulhas no oxigênio. Esfregaria seu amor no hospital. Esfregaria seu amor na piedade. Vinte oito anos. E faria o que sabia fazer melhor.
Um movimento rápido. Puxou o cabo da tomada. Cabo do oxigênio. Cabo da respiração. Ele ganhava por ela o jogo doentio. Ele estava matando os médicos que a deixaram ir para o túmulo com seu sofrimento maximizado. Ele a matava, ela que já estava morta. O cadáver parara de respirar. Um rápido espasmo. Um movimento no peito. E o barulho estrondoso das lágrimas caindo ao chão. O sangue do cupido escorrendo por seus olhos. A mesma faca que sufocava a relação. Vinte oito vezes. Agora atravessando o próprio esôfago. Esôfago de Guilherme. O Assassino de Paula. O Adúltero. O novo cadáver da coleção hospitalar. O cadáver sem fio que derramava ao chão. Dois amantes. Uma faca que não tinha fio. Um sexo que não tinha mais sabor. Tinha cheiro. Cheiro de sangue.

2 comentários:

Vinilou said...

Belo texto Lennon!
Bem "consequente" e real mesmo...
Dá pra sentir até a angustia da situação com a leitura ;x
Bom ler isso antes de pensar em brigar com a mulher :P

Araeliz said...

O vazio se propagava e preenchia tudo no vazio gerado como eco do vazio, este que se propagava e preenchia tudo no vazio gerado eco do eco do vazio, que se propagava e preenchia tudo no eco do eco do eco do vazio, que se propa...