Wednesday, February 11, 2009

Aluguel


O chão estava muito branco.
Era o que ele podia ver, ajoelhado no chão de casa. Uma forte dor no peito o colocou em posição fetal.
Era inevitável a tosse. Tossia assustado. Olhava para os lados. A dor parecia se mover dentro dele, subindo por seu esôfago e chegando à garganta.
Ninguém podia ajudá-lo. E como isso seria possível? Ele morava sozinho desde seus 19 anos. Já sabia que ninguém o ajudaria em caso de uma emergência. E a falta de convivência com os vizinhos e a carência de amigos próximos, apenas tornavam essas situações mais difíceis.
Tentou se acalmar. Apesar de conseguir sentir a dor de um objeto se movimentando por seu sistema respiratório. O esôfago. Ele não havia comprado aquele esôfago. Então porque ele estava ali?
O fato é que ele estava. E algo se movia dentro dele. Ele tossia. Uma tosse muda, como um cachorro doente. Ele estava de quatro.
O chão estava muito branco.
Ele tentava respirar, tentava controlar os pensamentos para se acalmar. De nada adiantava. A tosse muda continuava. A dor continuava e o objeto continuava se movendo.
Como seria possível?
Ele não havia comido nada ainda desde que acordara. Nada poderia ser da outra noite. Tão sólido.
Tão sólido.
Tão sólido ele sentia em seu pescoço. Avançou a mão para apalpar. Realmente havia algo em seu pescoço. Era grande, e doloroso. Não podia mais conter as lágrimas que agora fluíam enquanto ele sufocava. Ele sentiu que ia morrer.
Ele sabia que ia morrer, algo começou a sair pelo fundo de sua boca. Entrava em sua boca agora, mas não cabia, era grande demais.
Lágrimas, suor, medo e a solidão que engolia aquela cena. A solidão por negar que precisava de alguém. Agora não era tempo de se arrepender. Com 26 anos se acha que está suficientemente adulto para lidar sozinho com tudo.
Ele morava sozinho desde seus 19 anos. Já sabia que ninguém o ajudaria em caso de uma emergência.
Algo caiu ao chão. Algo caiu de sua boca para o chão.
Era a coisa que se movia em seu interior.
Era negro, um objeto negro. Em um banho de sangue.
Não era uma pêra, não. Não era nem tão pouco alegria. Era negro e era seu coração.
Seu coração, morto ao chão. Negro entregue ao sangue.
Eram duas horas da madrugada, mas pessoas passavam na rua. Seu coração não palpitava. Estava parado. Ele sabia o que ele queria. Queria olhá-lo.
- Aham, bela tentativa meu querido, mas não adianta. Mesmo de fora, você não vai me jogar este olhar cheio de julgamentos. Sei que você me acha errado, não me interessa. Não ache que vai me intimidar fingindo que está sem vida. Eu nunca aspirei nenhum tipo de vida para você de qualquer forma. A grande verdade, é que você é apenas um pedaço medíocre de mim.
O coração continuava lá. Lavado em sangue. Parado. Parar era sempre a atitude que ele tomava quando queria chamar atenção.
- Eu conheço essa reação. Nem adianta tentar.
O coração reagiu. Um movimento levíssimo. Quase imperceptível. E para surpresa de seu dono, a grande massa preta e sólida que o envolvia começou a derreter.
- Ótima ceninha. Você ensaiou não ensaiou? Eu te conheço, você ensaiou. Eu sabia. Deixe eu te comunicar um pequeno detalhe, que talvez tenha passado despercebido por você. Eu não tenho mais coração. Então é lógico que não preciso mais bancar o bom moço.
A faca estava muito próxima na mesinha do telefone. Com a faca na mão, o ex-dono de um coração passou a lâmina vigorosamente no pulso.
O sangue começou a escorrer. E com aquela atitude o coração se manifestou. Palpitava, palpitava. E o sangue de dentro dele jorrava, se misturando ao sangue do braço que escorria ao chão.
- Oh não, eu sei o que você está fazendo. Quer chamar a atenção do vizinho de novo, que vai reclamar que sangue está vazando de suas paredes. Saiba você, que agora estou livre. Não preciso mais me preocupar com nada. Nem comigo, nem com seu sangue, nem com o meu sangue. Nem com aquelas crianças ridículas nos orfanatos. Aqueles pandas idiotas que não transam para salvar sua espécie.
O coração começava a escorrer. Esvaziava. Tornava-se vazio, e mostrava ao chão que ele mentia sobre ser branco.
O chão não estava mais tão branco.
- A grande verdade é que eu nunca precisei de você. Você inibia meu desejo. Eu queria poluir, eu queria exterminar com tudo. Exterminar com minha vida. E agora estou livre. Livre de você, e quando esse sangue acabar, livre de minha vida. Acho que o meu aluguel que está atrasado será perdoado já que eu estou tingindo o apartamento. Você pode ver aí do chão, que eu estou dando meu sangue por essa pintura.
O coração estava quase vazio. Estava tudo chegando ao seu fim.
Naquele momento ele percebeu uma coisa. O coração estava também tentando dizer alguma coisa. Não estava lá apenas para julgá-lo.
- Espere, eu entendi a lição. Você quer se virar sozinho. Se libertar de mim, tanto quanto eu queria que você me deixasse livre. Agora eu vejo seus motivos também. Me perdoe por não ter dado esse espaço a você.
Com força a faca estava de novo em mãos.
E agora, a faca atravessava o resto de coração.
- Mas de qualquer forma minha liberdade vem primeiro.
Ele caiu de joelhos. Abria um pedaço branco no sangue do chão. Abriu uma brecha, para lembrança do chão. E naquele mesmo pedaço, ele caiu, desacordado. Porém de consciência limpa. Seu aluguel estava pago.
Os olhos estavam no chão. Literalmente.
O chão estava muito branco. Antes.

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