Sunday, January 11, 2009

O Um Complexo - 1º


Eu recebi algumas críticas depois do natal.
- Oh que tipo de pessoa escreve uma postagem sobre vômito no dia do natal?
- Oh você não vai postar nada de agradecimentos no seu blog?
Entre outras coisas. Bem, eu acho que quem tem que ser agradecido nesse blog, eu agradeço por outros meios, e aquela postagem natalina foi extremamente alto-astral, os depressivos em potencial são vocês.
Mas eu sou um menino de bom coração, então como um presente atrasado, vou postar o primeiro capítulo do meu primeiro livro, que pelo menos por enquanto se chama O Um Complexo.

1º Capítulo - Da Chuva Naquela Cidade

Estava nublado novamente, se fez nuvens no momento que ele pisou na calçada. Era desleixado, desnecessário, antigo, empoeirado. O cabelo desarrumado, calças rasgadas, tênis sujo e livros na mão.
Seguia em linha reta pela rua e analisava aquela paisagem urbana, selvagem e ártica. A livraria era próxima – mais um dia de trabalho – sem o infortúnio de ficar distante de seus amigos.
Há muito que não via sua família, sua família verdadeira, aquela que ele escolheu para si. Era grande, despreocupada, era de fato uma bela família.
Diante da amargura da desvalorização de suas conquistas e do quanto ele mesmo já estava se negligenciando, andava decidido a encarar seu patrão e avisar que sairia em viagem. Ele queria um lugar mais sombrio, mais frio – introspectivo – sempre mais frio.
Empurrou a porta de vidro estampada com imagens de letras, olhou fixamente para escada, alguém já o esperava em frente à escadaria. A moça de longos cabelos dourados e olhos verdes que ele encontrara por muitas vezes no passado. Destinos que haviam riscado desordenadamente muitas linhas juntos.
- Você está envelhecendo, mesmo com apenas 17 anos. Disse ela num tom seco.
Fitaram-se por algum tempo. De todas as coisas que ele queria dizer para ela, nada poderia ser dito, era um pacto consigo mesmo. Ele estava se policiando, antes de falar, e o longo silêncio se estendia.
- Olá!
Ele silenciou o cumprimento desejando ter algo mais inteligente para dizer.
Ela avançou em direção ao topo das escadas. Ele a seguiu.
- Por quanto tempo você vai ser manter preso a esta velha livraria John?
A moça o encarou séria, como quem espera por aquelas respostas duras – que não se quer ouvir – mas que se pergunta apenas para que essa decepção jogue-se por sobre as próprias costas do ouvinte.
- A chuva não parou ainda. Isso quer dizer que eu ainda posso sair de casa.
Aquela frase já era o suficiente para ela. Ele era complicado e difícil de conviver, mas uma coisa era aparente; John só conseguia se comunicar quando a temperatura estava de acordo com seu humor.
- Oh meu Deus John, seu olhar se torna mais cansado, seus hábitos te transformam em uma pessoa cada vez mais complexa, mas por vezes, você mostra que nunca vai crescer e vai ficar preso a essas atitudes infantis.
Ele olhou pro lado. Uma sala muito grande, com altas prateleiras cheias de livros os rodeava. A grande janela atrás da mesa onde ele havia largado os livros que carregava consigo estava completamente molhada pela chuva. O cheiro de madeira comum daquela livraria invadia o local. Tudo parecia úmido e cinza, mas o rosto dele estava mais amistoso, e por isso ela estava se arriscando nesse diálogo suicida.
- Precisamos conversar.
Foi apenas isso que ele disse. A voz rouca, os olhos sempre trocando a direção. Olhava para mesa, para estante, para ela, para chuva.
- Conversar? Quando “nós” conversamos? John você nunca fala nada, você apenas ouve e fica aí, desviando olhares, como se fugisse das coisas. Do que você tem medo afinal de contas? É isso que precisamos conversar John, do que você tem medo?
A moça com os olhos cheios de lágrimas, interrompeu subitamente o discurso com o barulho da porta do andar debaixo. Ela se virou e saiu andando.

Um feliz natal para os satisfeitos com a degustação, e no próximo natal, provavelmente os que ficaram curiosos terão acesso a versão integral do livro.

Ps: Relembrando que já foi postado um trecho do livro, mais avançado que eu selecionei, onde os personagens ainda não tinham nomes mas em que já havia uma questão sólida.
http://memoriasplasticas.blogspot.com/2008/07/complexo.html

2 comentários:

Helena said...

TUDO!

Alex Sobral said...

Sobre vomitar no natal, ou no dia enfim, devo admitir que dadas como essas me enojam mas não foi por esse motivo que vomitei horrores no meu natal e sim pela mistura pouco convencional de martine, cerveja, cigarros, baseados e champagner. Feliz 2009.